sábado, 28 de novembro de 2009

A importância da sistemática: Linguagem da biodiversidade:

Todo ser humano passa por um processo conhecido como socialização. Nesta fase da vida a criança é altamente suscetível aos estímulos ao seu redor e aprende principalmente pela observação de outros seres, em especial os seus pais com os quais tem maior contato. É nessa fase da vida que a criança balbucia suas primeiras palavras. Normalmente, papai e mamãe. A linguagem falada é a maneira pela qual a criança representa o mundo onde vive. Algumas crianças inclusive apresentam denominações próprias para alguns termos, e vemos palavras como “tótó”, “musquito” “nanãe” a criança na fase de aprendizado da linguagem, sente a necessidade de rotular tudo que está a sua volta. O uso de linguagens para representar o mundo é algo inerente ao ser humano, e que não se limita a infância. Os físicos repetem veementemente que a física é a única ciência que obedece às leis, porque esta é a única realmente objetiva porque os fenômenos ao nosso redor são representados através de fórmulas matemáticas objetivas. Portanto, podemos dizer que a física utiliza-se de uma linguagem, e a linguagem da física é a matemática. A IUPAC padroniza um conjunto de símbolos e fórmulas que representam os elementos as propriedades inerentes a eles, e a forma como regem entre si. Ao desenvolver um projeto, um cientista da programação após criar um algoritmo, precisa transformar este algoritmo em uma linguagem que o computador entenda, como JAVA ou C++. Com a biodiversidade não é diferente, do mesmo modo que os físicos representam os fenômenos de campo magnético com fórmulas matemáticas, os sistematas representam a biodiversidade através da ciência conhecida como sistemática.
Muitos, em especial os leigos, mas mesmo biólogos de outras áreas não entendem o quão abrangente é a ciência da sistemática, nem o quão importante esta ciência é para a pesquisa biológica e para a sociedade. A sistemática foi vista por muito tempo como uma prática meramente descritiva, que consiste em nomeação dos organismos e posterior agrupamento com base em semelhanças, sejam elas morfológicas, genéticas ou comportamentais. Assim, essa ciência foi vista por muito tempo e ainda é por muitos, como um grande catálogo em uma biblioteca. Ou seja, uma mera coleção de informações técnicas sobre a diversidade existente. Essa definição é pouco precisa, e caso fosse diferente, então não poderíamos nem mesmo nos atrever a definir a sistemática como uma forma de ciência. Devido a este tipo de pensamento, a sistemática foi tida por muito tempo, como uma área marginal das ciências da vida. O trabalho do sistemata se resumiria simplesmente a dar nomes em latim, às espécies descobertas por outros pesquisadores.
Keogh aponta como principal culpado dessa visão preconceituosa da sistemática, os próprios sistematas, que por muito tempo não manifestaram o interesse em explicar para os colegas biólogos e para a sociedade, a importância dessa ciência da qual todos eles tanto dependem (Keogh, 1995).
A sistemática é, no entanto muito mais do que isso. Como levantado por Hennig a sistemática é uma ciência que se ocupa em ordenar, racionalizar e ainda explicar os fenômenos da natureza. Podemos ver a sistemática, portanto, como um abrangente campo científico (Hennig, 1966).
Podemos encontrar aplicabilidade para a sistemática nas mais diversas áreas do saber biológico. Desde o melhor entendimento da teoria da evolução, a conservação ambiental, passando pelo controle biológicos de pragas e epidemias, até a busca de a descoberta de novas espécies úteis na pesquisa médica e na indústria.
A revitalização da sistemática e a reestruturação de seus métodos devem-se principalmente ao trabalho do entomólogo alemão Willi Hennig. Antes do trabalho de Hennig as classificações entre os seres vivos eram feitas principalmente por proposições arbitrárias, uma série de “achismos” que se embasavam muito mais na autoridade do sistemata do que em análises objetivas feitas a partir de observações. A sistemática era vista como uma ciência puramente descritiva que não incluía explicação e raciocínio. A sistemática pré-Hennigiana chegou a ser denominada como uma espécie de ciência-arte. Por mais que ambas sejam fascinantes, ciência e arte não costumam andar juntas, e se tal junção é feita, normalmente algo está errado.
Foi com a tradução para o inglês, de sua Obra Magna, o livro “Phylogenetic Systematics” que Hennig causou grande alvoroço entre a comunidade científica da época propondo um novo método de classificação biológica, e dando o significado, hoje tão bem conhecido pelos sistematas de termos, como monofiletismo, polifiletismo, parafiletismo, apomorfias, sinapomorfias, plesiomorfias, entre outros. O trabalho de Hennig removeu o caráter artístico da sistemática e a inseriu novamente como uma ciência da biologia.
O método filogenético proposto por Hennig pode ser considerado como a verdadeira linguagem da sistemática, uma vez que considera como grupos naturais aqueles grupos que apresentam uma verdadeira relação de parentesco evolutivo. Através da sistemática, portanto determinamos relações, ancestral-descendente entre as espécies de seres vivos com base em características compartilhadas pelos diferentes grupos. Tal entendimento é importante para que primeiro de tudo sejamos capazes de compreender como se formaram as espécies viventes, bem como o porquê de tais espécies se encontrarem onde estão, tendo, portanto uma aplicação direta na biogeografia.
Tentarei, nesse curto ensaio, apresentar um breve resumo sobre o que é a sistemática filogenética, o trabalho do sistemata, e a extrema importância desse trabalho, para o entendimento da esplêndida diversidade das formas de vida que nos cercam.
O biólogo ucraniano Theodosius Dobzhansky disse uma vez que “nada na biologia faz sentido, a não ser à luz da teoria da evolução” (Dobzhansky, 1973). A premissa de Dobzansky é sem dúvida correta. Partindo deste princípio, não faz sentido utilizar um método de classificação que não leve em consideração a forma de como as espécies evoluíram para as formas de hoje. O método filogenético não somente caminha ao lado com a teoria da evolução, como também é complementar a ela sendo útil para aprimorar nosso conhecimento sobre a história evolutiva das espécies, bem como ao ajudar, em especial estudantes a compreender e corrigir conceitos equivocados sobre a teoria evolutiva e sobre as relações hierárquicas entre os grupos de organismos. Assim, segundo Grandcolas, podemos parafrasear Dobzhanski da seguinte maneira: “Nada faz sentido em biologia, a não ser a luz da sistemática filogenética” (Grandcolas, 1997).
Pode-se observar nas últimas décadas, uma crescente preocupação com o ambiente que nos cerca. Alterações climáticas, desmatamento, conservação ambiental. Estas palavras vêm sido repetidas veementemente entre os meios de comunicação de massa, como um mantra. Fins científicos, culturais, econômicos e até mesmo ideológicos, levam a humanidade a procurar uma maneira de minimizar a extinção causada pela ação humana. Obviamente, no entanto, a conservação de todas as espécies, animais e vegetais, existentes em nosso planeta, é uma idéia que apesar de seu apelo romântico, é deveras inviável, uma vez que o recurso, pessoal e até mesmo espaço para isso é limitado. A partir da última proposição, podemos concluir, portanto, que escolhas devem ser feitas. Deve-se escolher quis espécies devem ser salva, e em que local. Estas escolhas levam-nos a inevitável pergunta: Quais critérios devem ser utilizados, para preservar determinada espécie, em detrimento de outras? Como podemos dizer que uma população é mais importante do que outra?
Após refletir um pouco, acredito que a primeira resposta para o problema acima, seria determinar sítios de conservação que contivessem o maior número possível de espécies. Tal método sem dúvida é válido, e foi e será usado muitas vezes em políticas de conservação. Imaginemos, no entanto, o seguinte cenário: Digamos que tenhamos sido contratados, pelo ministério do meio ambiente brasileiro, para estabelecer sítios de conservação na Amazônia brasileira. Durante o processo, nos deparamos com duas possíveis áreas a serem preservadas. A primeira delas, campeã em número absoluto de espécies, seria de acordo com o método estipulado acima, nossa opção lógica. Ao examinarmos a segunda área, no entanto vemos que apesar de possuir um número menor de espécies, as espécies nessa área divergem muito mais entre si do que aquelas da área um. Assim, optamos por conservar um grande número de espécies altamente próximas entre sim, em detrimento de um grupo de espécies, menor porem extremamente mais diverso. Mais uma vez, aqui se confirma a famosa fala de Dobzhansky e vemos a necessidade de utilizarmos critérios evolutivos também na conservação ambiental. Para tanto, a sistemática pode e deve ser usada como uma importante ferramenta. Conhecendo as relações filogenéticas entre os grupos, somos capazes de determinar qual região possui o maior número de grupos, filogeneticamente distantes entre si, criando sítios de conservação com uma maior taxa de biodiversidade. A utilização da sistemática filogenética, para a conservação ambiental, bem como os métodos utilizados para tanto, são bem discutidos por Crozier (Crozier, 1997; Crozier et al, 2005).
A importância desta fascinante ciência, não se restringe a conservação ambiental, muito pelo contrário, a indústria química, a agricultura, a saúde pública entre muitas outras, essas áreas do saber, dependem até certo ponto, da sistemática, uma vez que lidam diretamente com dados que dizem respeito à diversidade. Um inseticida utilizado em pragas de um determinado grupo, pode não surtir efeito em outros, as relações filogenéticas e os padrões de dispersão de insetos dos gêneros Anopheles e Phlebotomus, , por exemplo, permite o desenvolvimento de estratégias mais eficientes, para a o controle de parasitoses, com altíssimas taxas de morbimortalidade, como a malária e a leishmaniose.
A diversidade em nosso planeta é muito maior do que os sistematas são capazes de analisar. Basta olhar, por exemplo, a diversidade dos insetos, em que o número de espécies descritas se aproximam de um milhão e uma média de 3500 novas espécies são descritas todos os anos (Brusca & Brusca, 2002). Se considerarmos a estimativa de todas as espécies de seres vivos existentes, seria necessário, que os sistematas tivessem uma vida 25000 vezes maior, o que obviamente é impossível. Em meados da última década do século passado, um projeto conhecido como: ”Systematic Agenda 2000: charting the biosphere” propôs-se a documentar as espécies viventes no globo, em um prazo de 25 anos (Keogh, 1995). Iniciativas como essa, são louváveis, e um maior esforço na descrição de novas espécies, bem como a formação de novos sistematas, especialmente na região dos trópicos, é extremamente desejável. No entanto, deve-se tomar cuidado, analisando dados históricos, bem como as estimativas da diversidade, pode-se perceber que é muito improvável que uma toda a biodiversidade do planeta seja descrita em um período de tempo tão curto.
Neste ensaio vimos como a sistemática representa os processos evolutivos e algumas de suas aplicações nas diversas áreas do saber. Ao termino deste texto, vejo a sistemática como uma linguagem antiga e pouco compreendida. O trabalho do sistemata é, portanto o de traduzir as informações presentes neste antigo código de linguagem e traduzi-lo para um idioma científico, o idioma da sistemática.



Referências Bibliográficas:
Crozier, R.H.; Dunnett, L.J.; Agapow,P.M.; Phylogenetic biodiversity assessment based on systematic nomenclature; Evolutionary Bioinformatics Online, v.1 p. 11-36, 2005
Crozier R,H. ; Preserving the information content of species: genetic diversity, Phylogeny and conservation worth. Annu. Rev. Ecol. Syst. V. 24, p. 243-268, 1997.

Dobzhasnsky, T.; Nothing in biology makes sense except in the light of evolution. The American Biologist Teacher.; v. 35, p. 125-129, 1973.

Grandcolas, P.; Minet, J.; Desutter-Grandcolas, L.; Daugeron, C.; Matile, L. & Bourgon, T.; Linking phylogenetic systematics to evolutionary biology: toward a research program in biodiversity. In: Grandcolas, P. (ed.), The origin of Biodiversity in insects: Pylogenetic Test of Evolutionary Scenarios.; Mem. Mus. Natn. Hist. nat, v.173.; p. 341-350, 1997.

Hennig, W.; Phylogenetic Systematics.; University of Illinois press.; p. 1-28.; 1966.
Keogh, J.S.; The importance of systematics in understanding the biodiversity crisis: the role of biological educators.; Journal of Biological Education.; v. 29 p. 293-298, 1995.

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